Drones ameaçam operações em Guarulhos e governo prepara sistema inédito de proteção no aeroporto

Aeroporto Internacional de São Paulo será o primeiro do país a receber diretrizes específicas para implantação de tecnologia capaz de detectar, monitorar e neutralizar drones em áreas críticas

A presença de drones em áreas próximas às pistas do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, passou a ser tratada como uma questão estratégica para a segurança da aviação brasileira. Em 2026, ocorrências envolvendo aeronaves não tripuladas já provocaram interrupções nas operações do aeroporto e levaram autoridades a discutir a implantação de um sistema específico para detectar, acompanhar e neutralizar esses equipamentos.
O Ministério de Portos e Aeroportos estabeleceu em setembro diretrizes para que Guarulhos seja o primeiro aeroporto brasileiro a receber um sistema estruturado de detecção, monitoramento, mitigação e neutralização de drones.
A implantação ainda depende de avaliações técnicas e regulatórias. O modelo prevê participação da Agência Nacional de Aviação Civil, Departamento de Controle do Espaço Aéreo, Polícia Federal, Agência Nacional de Telecomunicações e demais órgãos envolvidos na segurança aeroportuária.
O objetivo é criar uma resposta mais rápida quando um drone entra em uma área considerada crítica para pousos e decolagens.
Guarulhos concentra parte relevante das ocorrências
Segundo informações apresentadas durante um painel sobre sistemas antidrones no Aviation Infra Summit, o Brasil registrou 52 ocorrências envolvendo drones que tiveram impacto sobre a aviação regular em 2026. Desse total, 14 ocorreram no Aeroporto Internacional de Guarulhos.
Os números foram apresentados pelo diretor-adjunto de Serviços de Navegação Aérea do DECEA, coronel Diego Henrique de Brito.
A quantidade de ocorrências chama atenção porque Guarulhos é um dos principais pontos de conexão da malha aérea brasileira.
Quando um drone é identificado próximo às pistas, o controle de tráfego aéreo pode precisar interromper temporariamente pousos e decolagens até que a situação seja considerada segura.
Episódio em agosto interrompeu pousos e decolagens
Um dos casos mais recentes aconteceu em agosto de 2026.
Segundo informações divulgadas pela Associação Brasileira das Empresas Aéreas, a presença de drones levou à suspensão das operações de Guarulhos durante aproximadamente 40 minutos.
O episódio afetou cerca de 4,9 mil passageiros. Foram registrados 20 voos atrasados ou desviados e oito cancelamentos entre as empresas aéreas brasileiras, segundo o balanço apresentado pela associação.
A GRU Airport confirmou na ocasião que pousos e decolagens foram temporariamente suspensos devido à presença de drones nas proximidades do aeroporto.
Dados divulgados pela NAV Brasil apontaram quatro ocorrências envolvendo drones no aeroporto em 2026, registradas em janeiro, fevereiro, maio e agosto.
Como deve funcionar o sistema antidrones
A proposta em discussão não se resume a um equipamento capaz de derrubar um drone.
Um sistema moderno de proteção contra aeronaves não tripuladas pode reunir diferentes tecnologias para identificar a presença do equipamento, acompanhar sua trajetória e determinar se ele representa uma ameaça.
Entre as tecnologias utilizadas nesse tipo de solução estão radares, sensores de radiofrequência, câmeras e outros mecanismos de identificação.
Em Guarulhos, a expectativa apresentada pela administração aeroportuária é que o sistema consiga detectar o drone em uma área de risco, acompanhar sua movimentação, identificar o operador e, quando houver autorização e necessidade, realizar a neutralização.
O que são jammers e cyber take over?
Entre as tecnologias discutidas estão os chamados jammers e sistemas de cyber take over.
O jammer atua interferindo em determinadas radiofrequências utilizadas para comunicação e controle do drone.
Já o conceito de cyber take over envolve mecanismos destinados a assumir o controle do equipamento, dependendo da tecnologia utilizada e das autorizações existentes.
A utilização dessas soluções em um aeroporto exige cuidados adicionais porque uma interferência de radiofrequência não pode atingir sistemas essenciais da própria infraestrutura aeroportuária ou das aeronaves.
Por isso, a implantação depende de regras técnicas e de coordenação entre diferentes órgãos públicos.
Anatel terá papel importante na neutralização
Um dos principais desafios para colocar o sistema em funcionamento está justamente na utilização de bloqueadores de radiofrequência.
A Anatel é responsável pela regulamentação do uso do espectro de radiofrequências e possui regras específicas para os chamados Bloqueadores de Sinais de Radiocomunicações.
A regulamentação permite o uso desses equipamentos em situações específicas, inclusive para contenção de drones, mas estabelece limites, órgãos autorizados e condições técnicas.
Em 2025, a Anatel também atualizou os requisitos técnicos e operacionais para equipamentos destinados ao bloqueio de controle e operação de drones.
Isso significa que a implantação de um sistema antidrones em Guarulhos não depende apenas da decisão da concessionária do aeroporto.
É necessário estabelecer quais equipamentos serão utilizados, em quais áreas poderão funcionar, em quais situações poderão ser acionados e quais autoridades terão competência para autorizar a neutralização.
Governo já estabeleceu diretrizes para Guarulhos
Em setembro de 2026, o Ministério de Portos e Aeroportos informou que Guarulhos será o primeiro aeroporto brasileiro a receber diretrizes específicas para implantação de um sistema de detecção, monitoramento, mitigação e neutralização de drones.
A diretriz determina que a aquisição, implantação e operação do sistema fiquem sob responsabilidade da concessionária do aeroporto, seguindo requisitos técnicos e de segurança definidos pelos órgãos competentes.
O DECEA deverá participar da definição das áreas de proteção e dos procedimentos relacionados à suspensão e retomada das operações aéreas.
A Anatel ficará responsável pelos requisitos relacionados aos equipamentos de radiofrequência.
A Polícia Federal também participará da estrutura de segurança.
Sistema ainda precisa passar por análise de risco
A implantação não significa que o equipamento começará a funcionar imediatamente.
A Anac deverá realizar uma avaliação de risco e de custo-benefício para a implantação em Guarulhos, considerando também as manifestações dos demais órgãos envolvidos.
Entre os critérios estão a movimentação de aeronaves e passageiros, a importância do aeroporto para a malha aérea nacional, o histórico de ocorrências com drones e as características do entorno.
O resultado dessa análise poderá servir de referência para uma eventual expansão da tecnologia para outros aeroportos brasileiros.
Por que Guarulhos foi escolhido?
A escolha de Guarulhos está relacionada à importância do aeroporto para a aviação brasileira e ao histórico de ocorrências envolvendo drones na região.
O aeroporto concentra milhares de operações e milhões de passageiros ao longo do ano.
Em agosto de 2026, por exemplo, o GRU Airport registrou mais de 4,3 milhões de passageiros, considerando voos domésticos e internacionais.
Uma interrupção relativamente curta pode produzir efeitos em cadeia sobre a programação das companhias aéreas, conexões, aeroportos alternativos e passageiros.
O problema não é apenas o drone
A presença de um drone próximo a uma pista não representa necessariamente um acidente.
O problema está na possibilidade de o equipamento entrar em uma trajetória de aproximação ou decolagem, criando uma situação que exige resposta imediata do controle de tráfego aéreo.
Aeronaves comerciais operam em diferentes velocidades e altitudes, especialmente durante procedimentos de aproximação, pouso e decolagem.
Por isso, mesmo um equipamento pequeno pode gerar uma situação operacional relevante quando aparece em uma área restrita.
Além do risco potencial de colisão, a simples impossibilidade de determinar imediatamente a posição e a trajetória do drone pode levar à suspensão preventiva das operações.
Brasil atualizou regras para drones em 2026
A discussão sobre sistemas antidrones ocorre ao mesmo tempo em que o Brasil atualizou as regras para operações de aeronaves não tripuladas.
Em junho de 2026, a Anac apresentou o RBAC nº 100, que substituiu o antigo RBAC-E nº 94.
O novo regulamento passou a organizar as operações em três categorias de risco: aberta, específica e certificada.
A mudança busca estabelecer exigências proporcionais ao risco da operação, considerando características do voo e não apenas o peso do equipamento.
Para operações de maior complexidade, podem existir exigências adicionais relacionadas à avaliação de risco e autorização.
O que muda para quem possui drone?
A discussão sobre o sistema antidrones em Guarulhos não significa que drones estejam proibidos no Brasil.
A operação continua sujeita às regras estabelecidas pelos órgãos responsáveis pela aviação civil, controle do espaço aéreo e telecomunicações.
O ponto central é que áreas aeroportuárias possuem requisitos específicos de segurança.
Voar próximo a aeroportos sem as autorizações e condições exigidas pode gerar riscos para a aviação e provocar intervenções das autoridades.
Guarulhos pode servir de modelo para outros aeroportos
A experiência prevista para Guarulhos poderá produzir informações importantes sobre a eficiência, os custos e os limites da tecnologia antidrones no Brasil.
O próprio Ministério de Portos e Aeroportos informou que os resultados da implantação serão utilizados para avaliar a necessidade de adoção de sistemas semelhantes em outros aeroportos.
A ideia é considerar fatores como quantidade de passageiros, movimentação de aeronaves, importância estratégica, histórico de ocorrências e características de cada aeroporto.
Dessa forma, o projeto de Guarulhos pode funcionar como uma espécie de laboratório operacional para definir como o Brasil pretende lidar com drones em áreas aeroportuárias nos próximos anos.
Perguntas frequentes
Guarulhos já possui um sistema antidrones?
Não. Em setembro de 2026, o governo estabeleceu diretrizes para a implantação do sistema, mas a instalação depende de etapas técnicas, regulatórias e de avaliação de risco e custo-benefício.
Quantas ocorrências com drones foram registradas no Brasil em 2026?
Segundo dados apresentados pelo DECEA em painel sobre o tema, foram 52 ocorrências que impactaram a aviação regular em 2026, sendo 14 em Guarulhos.
O que aconteceu em agosto de 2026?
Uma ocorrência envolvendo drones provocou a suspensão temporária de pousos e decolagens em Guarulhos por aproximadamente 40 minutos. Segundo a ABEAR, cerca de 4,9 mil passageiros foram afetados, com 20 voos desviados ou atrasados e oito cancelamentos entre companhias brasileiras.
O que é um sistema antidrones?
É um conjunto de tecnologias utilizado para detectar, identificar, acompanhar e, quando autorizado, mitigar ou neutralizar aeronaves não tripuladas que representem risco em uma determinada área.
O que é um jammer?
É um equipamento que interfere em determinadas radiofrequências. Seu uso é regulado e depende de condições específicas estabelecidas pela Anatel e pelas autoridades competentes.
Por que Guarulhos foi escolhido?
O aeroporto possui grande importância para a malha aérea brasileira e apresenta histórico de ocorrências envolvendo drones, fatores considerados na decisão de estabelecer o projeto como referência nacional.
Conclusão
A discussão sobre drones em Guarulhos deixou de ser apenas uma questão operacional para ganhar dimensão estratégica na segurança da aviação brasileira.
O projeto ainda está em fase de implantação e regulamentação, mas a definição de diretrizes específicas pelo governo federal cria um caminho para que o país teste uma estrutura mais sofisticada de proteção contra aeronaves não tripuladas.
O principal desafio será encontrar um equilíbrio entre resposta rápida, segurança da aviação, proteção das telecomunicações e respeito às competências de cada órgão.
Se funcionar como planejado, Guarulhos poderá fornecer os primeiros dados nacionais para definir como sistemas antidrones poderão ser utilizados em outros aeroportos brasileiros.




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